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Brasil

Banco Palmas: Bairro de Fortaleza tem 1° banco comunitário do Brasil com moeda social própria e ‘Pix interno’

Mais de 20 mil pessoas têm contas digitais no banco, e mais de 3 mil comércios aceitam a moeda social.

Por Redação

09/04/2026 às 15:00

A estrutura é semelhante a de um banco tradicional, com cartão de crédito e pix - Divulgação/Banco Palmas

A estrutura é semelhante a de um banco tradicional, com cartão de crédito e pix (Foto: Divulgação/Banco Palmas)

Criado há 28 anos no Conjunto Palmeiras, periferia de Fortaleza, o Banco Palmas é considerado o primeiro banco comunitário do Brasil. Fundado pela Associação dos Moradores do bairro, ele surgiu com o objetivo de reduzir a desigualdade social e econômica na região, cujo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é 0,12.

O Conjunto Palmeiras faz parte da Regional 9, que ainda abriga os bairros Cajazeiras, Barroso, Jangurussu, Parque Santa Maria, Ancuri e Pedras. Todos esses bairros possuem IDH inferior a 0,500, considerado muito baixo. Conheça abaixo a história do Banco Palmas, iniciativa que se tornou referência em inclusão financeira em um dos bairros mais pobres de Fortaleza.

A cidade de Fortaleza completa 300 anos no dia 13 de abril de 2026. O g1 Ceará publica uma série de reportagens contemplando histórias e curiosidades de todas as regionais até a data do aniversário da capital cearense.

Moeda social própria

Com moeda social própria e iniciativas de microcrédito, o projeto tem modificado a qualidade de vida da população. Criado em janeiro de 1998 pela Associação dos Moradores do Conjunto Palmeiras, o Banco Palmas passou a oferecer empréstimos com juros baixos e criar mecanismos para manter o dinheiro circulando dentro da própria comunidade.

Joaquim Melo, diretor do Palmas, explica que a ideia começou a ser construída ainda em 1997, a partir de uma pesquisa feita pela associação para entender por que os moradores estavam saindo do bairro. "Eles eram pobres economicamente e quando precisavam de dinheiro para, por exemplo, fazer uma cirurgia, vendiam seus barracos e iam embora".

Incomodados com a situação, iniciaram as atividades do banco comunitário, com a ideia de estimular a população a produzir e consumir dentro da própria região. No começo, o Palmas contava com doações internacionais de países como França e Inglaterra. Só em 2005 o governo brasileiro passou a apoiar: "Hoje no Brasil somos 182 bancos comunitários. Inspiramos muita gente, inclusive prefeituras".

A moeda social, uma das principais marcas do projeto, é chamada de ‘Palmas’ e pode ser usada por moradores e comerciantes da região. Com ela, é possível pagar por produtos e serviços em estabelecimentos credenciados, sem precisar sair do bairro.

"Você vem no banco, cria sua conta, uma espécie de conta corrente, e a partir disso pode usar os serviços do banco, pagar contas, pagar boleto, receber seu salário. Você pode pegar o crédito para produção, como comprar uma máquina de costura; crédito para moradia, para reforçar sua casa, de até 20 mil reais; ou crédito para consumo, para comprar algo de um artesão da comunidade. Se quiser, pode trocar suas Palmas por reais a qualquer momento no aplicativo ", detalha Joaquim.

Hoje, mais de 20 mil pessoas têm contas digitais no banco, e mais de 3 mil comércios aceitam a moeda social, de acordo com a instituição. Em 2025, a circulação desse dinheiro movimentou quase R$ 1 milhão na economia local:

“Sempre a gente pegava para investir no comércio, porque o comércio era pequenininho e a gente queria ampliar, comprar novos equipamentos. Sempre que eu entrava em dificuldade, recorria ao Palmas”, relata Edilson Soares, empreendedor.

Para comerciantes, a iniciativa fortalece o vínculo com os clientes e evita gastos com deslocamento. Eles podem usar o saldo para comprar de outros fornecedores locais ou trocar por reais a qualquer momento, diretamente pelo aplicativo.

Cada compra feita com a moeda Palmas gera uma taxa de 2% para o comerciante. O valor é menor do que o cobrado por operadoras de cartão tradicionais. Esse dinheiro vai para um fundo de crédito, que financia pequenos negócios e empreendedores do bairro.

“Você tem um supermercado que aceita a moeda, que tem o segmento que eles precisam, né? Não tem o deslocamento, gera essa economia dentro do próprio bairro. Eu sinto que eles [os clientes] se sentem confortávis”, comenta Márcia Feijó, dona de um supermercado do bairro que aceita a moeda social.

“Outra contribuição que Fortaleza deu para o mundo foi a plataforma digital, porque a gente criou aqui a plataforma E-dinheiro, que é um meio de pagamento. Aquilo que era de papel, agora você baixa o aplicativo, utilizando a moeda Palmas (...) Qualquer momento, no seu aplicativo, pode trocar a moeda Palmas por reais. É como se fosse um Pix interno”, acrescenta o diretor do banco, Joaquim Melo.

Desconto na conta de luz

Além do crédito e da moeda social, o Banco Palmas também investe em novos projetos para reduzir custos básicos da população. Um deles é o Palmas Solar, programa de energia renovável que permite desconto na conta de luz.

A iniciativa é a primeira usina solar solidária do Ceará e atende principalmente famílias de baixa renda. Os participantes não precisam investir na instalação de placas e podem ter redução de até 70% na conta de energia.

“Ele é um negócio associativo, que as famílias se associam, gera energia mais barata para as pessoas. A gente consegue economizar um quarto do custo de energia para as pessoas e elas não precisam fazer o investimento inicial, entrar para comprar placa, pagar, fazer empréstimo em banco”, explica Joaquim.

A moradora Elisângela participa do programa e afirma que já percebe diferença no orçamento. “A gente vai até o Palmas, se cadastra para solicitar energia solar e de lá é ligado um ponto para a Enel. E aí, se eu economizar mais na conta da Enel, a solar vem bem menor".

Segundo ela, a conta caiu quase pela metade. “Por exemplo, a minha conta de energia hoje está vindo R$ 110 no valor total. Estou pagando esse valor de 54,90".

O valor economizado pode ser usado no dia a dia, inclusive em compras no comércio local, reforçando o ciclo de renda dentro do próprio bairro.

"O motivo de sucesso é porque existe uma extraordinária capacidade produtiva nas comunidades, nas periferias. Aqui tem quase todo tipo de produto, o que falta é oportunidade de fomentar e ter dinheiro para fomentar esses comércios locais", encerra Joaquim Melo.

G1

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