Opinião
Tadeu Gomes
Eventual derrota de Lucas Ribeiro pode redefinir a lógica eleitoral na Paraíba
Cícero Lucena surge como potencial adversário competitivo e tem apresentado bom desempenho nas pesquisas de intenção de voto, colocando Lucas como segundo colocado.
Por Tadeu Gomes • Política e cotidiano
20/02/2026 às 10:00 | Atualizado em 20/02/2026 às 10:25
O cenário político da Paraíba ainda é frequentemente associado a práticas tradicionais de forte influência da máquina pública sobre os resultados eleitorais. Um dos pontos recorrentes é que, nos pleitos mais recentes para o Governo do Estado, o candidato apoiado pelo grupo que está no poder tem conseguido vencer nas urnas.
No pleito de 2010, Ricardo Coutinho levou a eleição ao Governo do Estado com o apoio do então governador Cássio Cunha Lima. Em 2014, Coutinho foi reeleito contando com a estrutura administrativa. Em 2018, João Azevêdo, apoiado por Ricardo, saiu vitorioso. Já em 2022, Azevêdo conquistou a reeleição, também respaldado pela estrutura governamental.
Outro aspecto relevante é a dinâmica das alianças. Após eleitos, tanto Ricardo Coutinho quanto João Azevêdo romperam politicamente com seus principais padrinhos eleitorais, passando, nos pleitos seguintes, a ocupar campos opostos no cenário estadual.
Esse histórico alimenta o debate sobre o peso da máquina pública e da articulação com prefeitos, sobretudo do interior, na consolidação de candidaturas estaduais. Em muitos municípios, gestores exercem liderança política significativa e tendem a alinhar seus grupos ao projeto do governador de ocasião, fortalecendo palanques e ampliando capilaridade eleitoral.
Os governadores cercam os prefeitos num curral eleitoral e ali sugam todos os votos que esses gestores conseguem captar. Os prefeitos já têm seus eleitores e sua quantidade certa de votos no município e, com isso, conseguem transferir todos esses sufrágios. Na época de campanha, eles passam nas casas dos eleitores entregando os ‘santinhos’ com todos os candidatos que eles têm de votar. Se não votarem, perdem os empregos na Prefeitura.
Não por acaso, João Azevêdo já reúne atualmente uma ampla base de prefeitos aliados.
Para as eleições deste ano, o governador já definiu apoio ao atual vice-governador, Lucas Ribeiro, como candidato à sucessão estadual. O grupo governista busca se perpetuar no centro administrativo paraibano.
Esse ciclo de poder, no entanto, está ameaçado. O prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena, surge como potencial adversário competitivo e tem apresentado bom desempenho nas pesquisas de intenção de voto.
Cícero lidera em absolutamente todas as sondagens de institutos de pesquisa. Isso é incomum, visto que em pesquisas de pleitos passados sempre o postulante do grupo governista liderava. Além dele, Efraim Filho também aparece como nome relevante na disputa, na terceira colocação.
João tem dito em entrevistas que Cícero tem um "projeto de poder". A intenção do governador é óbvia: desvirtuar a postulação do gestor pessoense. Mas ele esquece que uma possível eleição de Lucas colocará a família deste no centro do poder paraibano. O tio Aguinaldo Ribeiro (PP) é deputado federal; mãe, Daniella Ribeiro, é senadora.
Quem sabe não seria o momento de Azevedo repensar as estratégias políticas, semelhante ao que o prefeito de Itaporanga, no Sertão, fez em 2024. Ao perceber que seu candidato à sucessão ia perder com grande diferença de votos, ele resolveu se juntar ao então postulante de oposição, Azif Lemos (PSB), e assim conseguiu manter o grupo no poder.
+ Com apoio do governador, prefeito de Itaporanga se une a pré-candidato de oposição
Mas no caso de Azevedo, há diferenças, pois este, certamente, deve favores políticos à família Ribeiro. Dessa forma, ele não pode simplesmente descartar Lucas.
Diante desse contexto, o pleito de 2026 pode representar não apenas a continuidade de um ciclo político, mas também a possibilidade de reconfiguração das forças estaduais. A consolidação ou não do projeto governista dependerá da capacidade de articulação, da manutenção das alianças e da leitura estratégica do cenário eleitoral por parte dos principais atores envolvidos.
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