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Opinião
Tadeu Gomes

Crônica: Um abril despedaçado

Após a partida do meu pai, o mês ganhou outra forma e se tornou o mais triste entre os outros 11.

Por Tadeu Gomes • Política e cotidiano

20/04/2026 às 19:40 | Atualizado em 20/04/2026 às 20:19

Chico de Bastinho - Arquivo pessoal

Chico de Bastinho (Foto: Arquivo pessoal)

Hoje é um daqueles dias em que a saudade vem como o sol abrindo a manhã. Seis anos já passaram desde a morte do meu pai, Seu Chico. Passou tão rápido, semelhante a um rio seco que acabou de receber água.

Dia 20 de abril de 2020, ainda na pandemia, ele nos disse adeus. Sem dizer uma só palavra, foi embora. Estava deitado na cama, levantou-se, foi ao banheiro, deitou-se e PUM! Silenciou-se! 

A morte foi ocasionada por um problema no coração. Um ano anos ele havia feito procedimento cirúrgico de cateterismo cardíaco. 

Após sua ida, veio a tarefa difícil pra quem ficou: avisar aos filhos que estavam longe sobre sua morte. Minha mãe não estava em condições de dar a notícia. Ela se encontrava dormindo com ele e presenciou seus últimos instantes. 

Então a missão foi dada aos que estavam perto. 

"Trrim! Trrim!" Tocou o primeiro telefone.

— Ei, aconteceu um negócio chato aqui — disse um dos filhos aos demais.

 — É... ele se foi.

De repente, silêncio e choro. 

Eu fui acordado às 4h. Ouvi as palmas no portão. A mim, a tarefa de passar a infausta notícia foi dada a Júnior Freitas, amigo da família. Acordei e ele me disse: “Ele passou mal e foi levado a Patos”. Mentira! Pensei: ninguém acorda alguém a essa hora apenas para dizer que outra pessoa passou mal. Então me disseram, mesmo antes de eu abrir o portão: ele faleceu.

O mundo desabou sobre minha cabeça. Nunca tinha perdido alguém tão próximo. Ele foi o primeiro e, até agora, consequentemente, o mais doloroso. Uma experiência sem igual. Ninguém nunca está preparado para perder um dos pais, por mais que esteja evidente a partida. 

Chico tinha peculiaridades: ele tinha muita vontade de aprender a pilotar moto, mas nunca conseguiu. Tentou por várias vezes e em todas caiu e levou quem estava na garupa ao chão. A última tentativa foi comigo, na estrada do sítio Ranchinho, zona rural de Boa Ventura, Sertão da Paraíba.

Liguei a moto, ele subiu na frente, eu atrás e fomos... o esperado aconteceu: após um minuto de percurso e poucos metros de distância nos esborrachamos no chão. A desculpa dele foi a melhor já inventada: “Tu não me ensinou onde era o freio”, alegou. Apesar de alguns arranhões, nós só fizemos rir.

Ainda hoje, minha mãe reclama de obras inacabadas dele em casa. Inventava de ser pedreiro, mas não tinha muita perícia na profissão. Só ajeitava uma telha em casa quando não tinha mais jeito e a água da chuva já estivesse entrando pelas brechas. O que ele sabia e gostava de fazer era mexer com agricultura.

Aos domingos, gostava de beber um minúsculo e único copo de cachaça. Chegava do sítio e tomava. Ele comprava um litro de 51 e passava semanas pra terminar de tomar. Ele não era alcoólatra, não fumava, não era agressivo; era calmo, tranquilo e nunca se preocupava com nada, pois tudo pra ele era remediável.

Ele se gabava que acordava todos os dias às 3h. Pra ele, 6h já era 'meio-dia em ponto'. Em compensação, passava o dia todo cochilando. Onde encostasse, fechava os olhos e dormia.

Ele perdeu o pai - meu avô - ainda novo, e por ser o mais velho entre os cinco filhos, assumiu o papel de tomar conta da família dele, resolvendo problemas de quatros irmãos. Quando havia situações em que eles não conseguiam lidar, iam direto lá pra casa pra chamá-lo.

Na infância morávamos no sítio, um lugar de poucos habitantes e rodeado de mato. Lembro-me que eram constantes as vezes em que ele precisou mandar pessoas embora na madrugada.

Explico: como lá era escuro, com pouca energia elétrica, casais queriam fazer o lugar de motel e iam de carro pra lá.

Quando a gente via um veículo estacionado já sabíamos do que se tratava, então acionávamos o “guardião do sítio Castelo”. Na época ainda não existia estatuto do desarmamento nem proibição de cidadão possuir arma, então ele pegava seu 38  e com a maior moral determinava que eles se retirassem.

Eu achava exagero, mas ele dizia que ali não era lugar pra isso, pois era ambiente de família. Eu entendia bem.

O velho não sabia ler, tampouco escrever, e assinava apenas o próprio nome, mas deixou exemplos de vida e, principalmente, ensinou a cada de um seus 12 filhos a "ser gente". 

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Tadeu Gomes

Política e cotidiano

Redator e diretor do Diamante Online, graduando em Letras-Português e com atuação na segurança pública. 

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