Dados apontam que pior da crise ficou para trás, mas incerteza permanece alta, avaliam economistas

Dados da Receita mostram emissão de notas fiscais atingiram em junho o maior patamar do ano. Para ana"fundo do poço" foi em abril e tombo no ano pode ser um pouco menor.

Indicadores econômicos de maio e junho indicam uma reação da economia brasileira e sinalizam que o pior da crise pode ter ficado para trás, apesar das incertezas ainda elevadas sobre o ritmo de recuperação e sobre o avanço da pandemia de coronavírus no país.

Dados da Receita Federal de emissão de notas fiscais apontam uma retomada já em junho. Números antecipados no domingo pelo jornal "O Estado de S.Paulo" e divulgados oficialmente nesta segunda -feira (6) mostram que o mês passado teve o maior patamar em emissões de notas fiscais do ano, chegando a R$ 23,9 bilhões em vendas ao dia, o que é um crescimento de 10% em relação a junho de 2019.

O termômetro capta, principalmente, as vendas entre empresas de médio e grande porte, bem como as vendas não presenciais de empresas para pessoas físicas.

Na comparação com o mês anterior, o tombo nas vendas de abril foi seguido de aumentos de 9,1% em maio e de 15,6% em junho. Ainda de acordo com a Receita, todas as regiões do país mostraram recuperação no ritmo de vendas em junho.

O resultado da produção industrial em maio, divulgado na semana passada pelo IBGE, também surpreendeu positivamente, ao mostrar um crescimento de 7% na comparação com abril. O avanço foi insuficiente para reverter a perda de 26,3% acumulada em março e abril, mas trouxe o alívio de que o setor parou de cair. Os dados de serviços e comércio serão divulgados nesta semana.

"Abril foi o fundo do poço"
"Acredito sim que o pior da crise ficou para trás e que abril foi, de fato, o fundo do poço. Os indicadores antecedentes da atividade econômica vêm surpreendendo positivamente", avalia e economista Luana Miranda, pesquisadora do Ibre/FGV. "Nossa última projeção oficial para o PIB é de queda de 9,8% no 2º trimestre, na comparação com o trimestre anterior, e de 6,4% no ano. Contudo, os indicadores antecedentes de maio e junho trazem um viés ligeiramente positivo no cenário, a confirmar após a divulgação das pesquisas de comércio e de serviços de maio".
O economista Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, também avalia que a recuperação pode se dar de maneira mais rápida do que inicialmente se imaginava.

"Parece que há uma recuperação em curso melhor do que se esperava, com abril tendo sido o fundo do poço e os números melhorando rapidamente depois disso. Essa recuperação mais rápida deve fazer com que o PIB caia menos do que se imaginava", afirma.

Os economistas do mercado financeiro melhoraram levemente as estimativas para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2020. A projeção passou de uma retração de 6,54% para 6,50%, segundo boletim Focus divulgado nesta segunda-feira. O Ibre e a MB Associados projetam uma queda de 6,4% no ano.

Apesar da avaliação de que o Brasil já entrou em uma nova recessão e deverá registrar uma forte retração em 2020, bancos como o Itaú e Fator também consideram que a economia já entrou em recuperação.

"Dados indicam que a atividade econômica atingiu o piso em abril. Indicadores como o consumo de energia elétrica industrial, a utilização de capacidade da indústria de transformação e construção, a retomada de produção de algumas montadoras de veículos, assim como o nosso indicador diário de atividade, mostram melhora em maio e junho", avaliou o Itaú em nota divulgada ao mercado.
O banco mantém uma projeção menos pessimista que a da média do mercado para o resultado do PIB em 2020 e estima uma retração de 4,5% no ano.

Retomada em "V" é vista como improvável
Os economistas alertam, no entanto, para o nível ainda elevado de incerteza econômica e política no país, e avaliam que a recuperação das perdas com a pandemia deverá se dar de maneira gradual, em um ritmo provavelmente mais lento que o de outras economias.

Para Paulo Gala, diretor-geral da Fator Administração de Recursos e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), avalia que a recuperação da economia brasileira tende a ser em ritmo mais fraco do que a observada nos Estados Unidos, Reino Unido ou Europa.

"O Brasil já estava numa situação muito frágil, com várias empresas à beira da falência, muita dívida, desemprego ainda muito elevado e perspectivas de crescimento muito ruins. A Covid foi uma espécie de gota dágua para a quebradeira generalizada e não há nenhuma sinalização do governo de no futuro tomar medidas de estímulo. Muito provavelmente vamos ficar entre as piores recuperações do mundo", afirma.
O nível ainda muito baixo da atividade, que ainda não tinha se recuperado das perdas da recessão de 2014-2016, também é apontado como um desafio adicional para uma retomada mais forte.

"O nível de incerteza ainda bastante alto deve conter o crescimento do consumo e do investimento, inviabilizando uma possível retomada em "V". A recuperação inicial deve ser um pouco mais forte, mas depois deve seguir em um ritmo mais lento até retomar ao patamar pré-crise", avalia Miranda.

Os analistas chamam atenção ainda para outros riscos como a incerteza quanto a evolução do dívida pública e a piora no mercado de trabalho.

"Muita gente foi para a informalidade e terá dificuldade de ser reempregada. Essa massa de renda perdida terá impactos crescentes ainda na economia. Então, há motivos para comemorar um impacto menor no curto prazo, mas os efeitos de longo prazo especialmente em mercado de trabalho precisam ser vistos com atenção", destaca Vale.

Ele alerta ainda para os riscos do avanço da pandemia no Brasil e eventual necessidade de regresso aos confinamentos. "Há que se tomar cuidado com os próximos meses. Primeiro, porque a Covid-19 deverá ficar mais tempo conosco do que ficou na Europa. Segundo, porque a contaminação tem aumentado em outras regiões e isso tende a trazer repercussões negativas ainda na economia, com quarentenas pontuais ainda podendo acontecer, acrescenta.

O economista Silvio Campos, da Tendências, lembra também que o país sairá desta crise bastante afetado nas contas públicas. "Antes da pandemia havia uma tendência de acomodação da relação dívida/PIB pouco abaixo de 80% do PIB, mas a herança da epidemia será uma relação dívida/PIB acima de 90% e com possibilidade de se aproximar de 100%. Isto preocupa bastante, ainda mais diante das dificuldades de avançar com novas medidas de ajuste no Congresso em meio ao quadro político turbulento".

Fonte G1.

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