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Babilônia: quando Hollywood vira um delírio épico nas mãos de Damien Chazelle
O resultado é um filme que divide opiniões, mas que jamais passa despercebido.
Por Diamante Online
19/08/2026 às 10:02 | Atualizado em 19/08/2026 às 10:07
Damien Chazelle nunca teve medo de exageros. Depois de nos hipnotizar com o ritmo frenético de Whiplash e de nos fazer sonhar com La La Land, o diretor decidiu mergulhar de cabeça no lado mais selvagem, caótico e autodestrutivo da indústria cinematográfica. babilônia filme não é apenas um retrato da transição do cinema mudo para o sonoro — é uma celebração febril, excessiva e visceral de tudo o que Hollywood já foi e, talvez, ainda seja por baixo do verniz.
Com um elenco encabeçado por Brad Pitt, Margot Robbie e Diego Calva, a produção se lança em uma jornada de três horas que mistura festas regadas a álcool, cocaína e ambição desenfreada. O resultado é um filme que divide opiniões, mas que jamais passa despercebido. Chazelle constrói um espetáculo visual e sonoro que funciona como uma carta de amor e um atestado de óbito ao mesmo tempo.
O caos como linguagem narrativa
Desde os primeiros minutos, fica claro que Chazelle não está interessado em sutileza. A câmera se move freneticamente, a trilha sonora de Justin Hurwitz pulsa como batidas cardíacas aceleradas, e os personagens parecem sempre à beira de um colapso nervoso. Essa estética do excesso não é gratuita — ela reflete perfeitamente o espírito de uma época em que Hollywood estava se reinventando, onde estrelas nasciam e desapareciam da noite para o dia.
Margot Robbie interpreta Nellie LaRoy, uma atriz em ascensão que encarna toda a energia selvagem e autodestrutiva daquele período. Sua performance é magnética, oscilando entre a vulnerabilidade e a explosão pura de carisma. Ao lado dela, Brad Pitt vive Jack Conrad, um astro estabelecido que começa a perceber que seu tempo está se esgotando. A química entre os dois atores funciona como espinha dorsal emocional do filme, mesmo quando o roteiro parece mais interessado em chocar do que em aprofundar.
Diego Calva, ator mexicano que ganhou destaque internacional com esse papel, interpreta Manny Torres, um imigrante que sonha em fazer parte da máquina hollywoodiana. Sua jornada serve como fio condutor para o espectador, um olhar externo que aos poucos se contamina pela loucura ao redor.
Hollywood se olhando no espelho
O que torna essa produção tão fascinante é a forma como Chazelle usa o passado para falar do presente. Ao retratar a transição tecnológica que mudou para sempre a indústria, o diretor também comenta sobre a natureza efêmera da fama, a crueldade do estrelato e o preço que se paga por pertencer a esse mundo.
Há cenas que funcionam como verdadeiros manifestos visuais. Uma sequência em particular, onde uma equipe inteira tenta gravar uma cena sonora pela primeira vez, é ao mesmo tempo hilária e angustiante. A câmera captura o desespero dos profissionais tentando se adaptar a uma nova realidade, enquanto o som ambiente — antes irrelevante — se torna um inimigo implacável. É nesses momentos que o filme brilha, mostrando que por trás do glamour sempre existiu muito suor, sangue e lágrimas.
A fotografia de Linus Sandgren merece destaque especial. Cada quadro parece pintado à mão, com cores vibrantes que contrastam com a decadência moral dos personagens. A luz dourada das festas contrasta com a escuridão dos bastidores, criando uma dualidade visual que reforça o tema central da obra.
Um filme que não pede desculpas
Chazelle sabia que estava fazendo algo polarizador. Há excessos propositais, cenas que ultrapassam limites do bom gosto, momentos que parecem existir apenas para provocar. Mas é justamente essa ousadia que torna a experiência tão única. O diretor não está interessado em agradar — ele quer incomodar, fazer pensar, provocar reações viscerais.
A trilha sonora merece um parágrafo próprio. Justin Hurwitz, colaborador frequente de Chazelle, criou uma composition que mistura jazz frenético com orquestrações grandiosas. A música não apenas acompanha as imagens — ela dialoga com elas, criando uma sinergia perfeita entre som e imagem. Há momentos em que a trilha sozinha carrega a emoção da cena, elevando o filme a outro patamar sensorial.
O roteiro, também assinado por Chazelle, não tem medo de ser ambicioso. Ele entrelaça múltiplas histórias, salta no tempo, mistura tons e gêneros. Nem sempre funciona perfeitamente, há momentos em que a narrativa parece perder o foco, e algumas subtramas poderiam ter sido melhor desenvolvidas. Mas é inegável que há uma visão autoral forte por trás de cada escolha.
A montagem de Tom Cross é frenética, quase claustrofóbica em certos momentos. Os cortes rápidos criam um ritmo alucinante que pode cansar alguns espectadores, mas que é essencial para transmitir a sensação de descontrole que permeia toda a obra. É um filme que exige atenção total, que não permite distrações.
No final das contas, essa produção funciona como um espelho distorcido de Hollywood — mostrando tanto a beleza quanto a podridão, o sonho e o pesadelo. Chazelle entrega um épico imperfeito, mas absolutamente inesquecível, que reafirma seu lugar como um dos diretores mais ousados da sua geração.
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