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Esportes

De um menino apaixonado por cães a herói da Espanha na conquista da Copa do Mundo: a história de Ferran Torres

Jogador do Barcelona é um defensor assumido da adoção de cães abandonados, e cresceu driblando os animais no quintal de casa.

Por Redação

20/07/2026 às 16:30 | Atualizado em 20/07/2026 às 16:41

Ferran Torres - Reprodução

Ferran Torres (Foto: Reprodução)

O nome de Ferran Torres ficará para sempre ligado à história do futebol espanhol. Foi dele, já no prolongamento da final frente à Argentina (1-0), o gol que decidiu o Mundial 2026. Um momento que coroou uma carreira feita de superação, depois de uma infância passada entre bolas e cães, de problemas de saúde mental, de críticas e de uma transformação que o levou a tornar-se no "Tubarão" do futebol espanhol.

Comecemos pelo princípio. Até a data de nascimento faz de Ferran um caso raro. Nasceu a 29 de fevereiro de 2000, em ano bissexto, o que significa que, aos 26 anos, apenas celebrou o aniversário na data exata por seis vezes: 2004, 2008, 2012, 2016, 2020 e 2024.

Nos restantes anos, divide as celebrações entre 28 de fevereiro e 1 de março.

Curiosamente, em 2026 não teve direito ao dia no calendário, mas encontrou uma data ainda mais especial para ficar para sempre na história: 19 de julho, o dia em que decidiu uma final do Campeonato do Mundo.

Os cães eram os primeiros defensores

Muito antes de levantar a Taça do Mundo, Ferran passava horas no quintal da casa da família, em Foios, nos arredores de Valência. O campo e a trave eram improvisados, e os adversários eram... os cães da família.

"Eu tinha um cão que tentava tirar-me a bola a toda a hora e isso acabou por me ajudar", recordou numa entrevista à revista Panenka.

A ligação aos animais nunca desapareceu. É um defensor assumido da adoção de cães abandonados, já acolheu Milo, Minnie e Lluna e chegou mesmo a tatuar Rex, outro dos cães que marcaram a sua vida. Ferran já confessou que, se pudesse, levaria todos os cães abandonados para casa e utiliza frequentemente a sua visibilidade para incentivar outras pessoas a fazer o mesmo.

Crescer depressa... demais

A paixão pelo futebol começou cedo. Aos sete anos entrou para a formação do Valência, depois de um professor ter alertado os pais para o talento que mostrava na escola.

Mas, aos 12 anos, viveu um dos momentos mais difíceis da infância. Num único verão cresceu cerca de 12 centímetros e perdeu completamente a coordenação motora.

Cheguei à pré-temporada e não conseguia controlar uma bola. Caía constantemente enquanto corria. Pensei que a minha carreira tinha acabado», recordou.

Nessa altura viveu também o divórcio dos pais e passou a residir na academia do Valência. Todos os domingos, quando a família o deixava novamente na residência, chorava. Hoje admite que essa fase o obrigou a amadurecer muito antes do tempo.

O "poço sem fundo"

Depois de se afirmar no Valência, rumou ao Manchester City em 2020 e regressou a Espanha um ano e meio depois, quando o Barcelona pagou cerca de 55 milhões de euros pela sua contratação.

A pressão pelo valor investido e as oportunidades desperdiçadas acabaram por afetá-lo profundamente. Após o Mundial do Qatar, Ferran revelou que entrou num "poço sem fundo" e decidiu procurar ajuda psicológica.

"Nunca me tinha sentido tão em baixo", admitiu.

Percebeu que a obsessão pelos gols lhe tinha retirado o prazer de jogar e passou a trabalhar o equilíbrio emocional com a mesma dedicação que aplicava nos treinos. A mudança foi evidente: reencontrou a confiança e assinou as duas épocas mais produtivas da carreira, culminando com 21 golos em 49 jogos pelo Barcelona em 2025/26.

Como nasceu o "Tubarão"

Foi também nessa fase que apareceu a alcunha que hoje o acompanha.

Tudo começou numa conversa com os companheiros do Barcelona sobre o hispano-gerogiano Ilia Topuria, antigo campeão mundial de UFC. Ferran contou-lhes uma resposta do lutador - «Aqui o tubarão sou eu» - e identificou-se imediatamente com essa mentalidade.

Quero ser como ele. Entrei como Ferran e saí outra pessoa", explicou.

Os colegas passaram a encher as publicações do avançado com emojis de tubarão e o apelido ficou para sempre. A transformação também ficou gravada no corpo. Entre várias tatuagens, destaca-se uma âncora igual à da irmã, Arantxa, acompanhada da frase «I refuse to sink» («Recuso-me a afundar»), além de asas inspiradas na fénix, símbolo de renascimento, e da inscrição: «Tentas, falhas, levantas-te.»

Das críticas ao herói de um país

Nem o Mundial começou da melhor forma. Apesar da excelente temporada ao serviço do Barcelona, Ferran foi um dos jogadores mais criticados da seleção espanhola durante a fase de grupos. Os números mostravam que estava entre os atletas com maior índice de golos esperados, mas a eficácia não aparecia.

Na goleada frente à Arábia Saudita chegou mesmo a festejar um golo que acabou anulado por fora de jogo. As câmaras captaram-no a murmurar: «Por favor, que seja golo».

As críticas multiplicaram-se, mas desapareceram no momento em que mais importava.

No prolongamento da final frente à Argentina, apareceu nas costas da defesa para corresponder ao passe de Nico Williams e marcar o gol que fez explodir Espanha.

O jogador que cresceu driblando cães no quintal em Foios, que pensou abandonar o futebol aos 12 anos, que combateu os próprios fantasmas e que aprendeu a renascer, encontrou finalmente o dia perfeito para entrar na história. Não foi a 29 de fevereiro. Foi no dia em que deu um Mundial à Espanha.

CNN Portugal