Opinião
Joaquim Sérvulo
Uma eleição disputada por três: Augusto Cury versus a máquina de "moer gente"
O desafio da terceira via é furar a bolha e romper a polarização, mas nos últimos pleitos todos ficaram restritos ao embate do primeiro turno.
Por Joaquim Sérvulo • Política, cotidiano e justiça
30/08/2026 às 10:59 | Atualizado em 30/08/2026 às 11:03
O Brasil tem 13 candidatos à Presidência em 2026, mas, nesse momento, somente três se destacam: Lula, Flávio Bolsonaro e Augusto Cury. Os dois primeiros estão no centro da polarização política brasileira, enquanto Cury tenta ganhar espaço no meio de campo.
Isso não é exatamente uma novidade. A política brasileira tem uma espécie de “vocação” para a polarização. Para que você entenda melhor, a polarização é a divisão entre dois grandes grupos com posições políticas fortemente opostas. É isso tem ocorrido no Brasil.
Só a título de exemplo, em 2022, Lula e Bolsonaro dominaram a disputa, enquanto Ciro Gomes e Simone Tebet corriam por fora. Em 2018, Bolsonaro e Haddad estiveram no centro da disputa; Ciro, mais uma vez, almejava espaço – e não conseguiu. Em 2014, Dilma Rousseff e Aécio Neves protagonizaram a eleição, tendo Eduardo Campos, antes de sua morte, como alternativa capaz de romper a bipolarização, que depois ganhou outra configuração com Marina Silva – e ela, também, não chegou lá.
Antes deles, outros nomes também tentaram furar essa lógica. Enéas Carneiro, por exemplo, conseguiu chamar a atenção nacional e construir uma identidade política própria, mas não chegou a transformar sua força eleitoral em uma disputa real pelo segundo turno – tampouco alcançou votações expressivas.
Logo, constata-se que o desafio de todo “terceiro” nome é furar a bolha e romper a polarização. Observem que todos os exemplos citados acima ficaram restritos ao embate do primeiro turno.
Tudo isso se dá por uma razão simples: o eleitorado brasileiro é dividido em três grupos: os apaixonados, os raivosos e o eleitor “neném”. O apaixonado vota por amor à personalidade, ao passo que o raivoso vota em qualquer nome que seja forte o suficiente para derrotar essa personalidade; o eleitor neném, por sua vez, é aquele que rejeita os dois lados (nem Lula nem Bolsonaro).
Cury, após o primeiro debate, conseguiu morder parte do eleitor neném, além de conquistar alguns votos dos eleitores raivosos, que passaram a acreditar que ele pode ser forte o suficiente para derrotar Lula ou Bolsonaro — cada um, naturalmente, pensando na derrota do seu desafeto.
E o seu problema começa aqui. Ao ameaçar os polos, ele inflama os candidatos e os seus apaixonados, razão pela qual será pressionado a se posicionar justamente sobre os temas que alimentam a polarização: a prisão de Bolsonaro foi legal ou ilegal? A prisão de Lula em 2018 foi legal ou ilegal? O PT é marcado pela corrupção? Bolsonaro é honesto? Seus governos foram bons ou ruins? O Supremo tem agido dentro dos limites da Constituição?
É provável, inclusive, que Lula e Flávio aceitem participar dos próximos debates e se utilizem de tais perguntas. Essas questões podem fazer Cury ganhar votos de um lado e perder do outro, ou simplesmente fazê-lo inflar e retornar rapidamente à casa dos “poucos por cento”.
Talvez seja cedo para qualquer conclusão. Tudo pode acontecer — embora seja bem provável que a história se repita: a polarização tende a esmagar qualquer um que ameace romper seus polos. Por ora, resta saber se Augusto Cury conseguirá fazer aquilo que nenhum “terceiro” nome conseguiu: romper a barreira da polarização e quebrar a máquina de “moer gente”
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