Opinião
Joaquim Sérvulo
Lula para além do lulismo: o desafio (im)possível de superar o antipetismo
Ao que parece, Lula e sua cúpula já não compreendem o Brasil desde 2014, quando surgiu o movimento Vem Pra Rua.
Por Joaquim Sérvulo • Política, cotidiano e justiça
12/10/2026 às 17:22
Nos meus dois últimos artigos, acertei alguns pontos, entre eles: 1) a polarização esmagaria a terceira via; 2) o primeiro turno seria imprevisível; e 3) esta eleição seria marcada pelo antipetismo.
Não deu outra. Augusto Cury inflou as expectativas em torno da terceira via, cujos candidatos, somados, não chegaram a 10% dos votos (receberam apenas 7,81%). Lula, por sua vez, amargou derrota por uma diferença de quase três milhões de votos.
E essa derrota do petista não se deveu aos méritos de Flávio Bolsonaro, que, aliás, sempre foi um político mediano.
Ao que parece, Lula e sua cúpula já não compreendem o Brasil desde 2014, quando surgiu o movimento Vem Pra Rua, em meio à ascensão de grupos como o MBL. Nascia ali uma força política que contribuiria para a queda da ex-presidente Dilma Rousseff e, mais tarde, abriria caminho para Bolsonaro e para a derrota de Fernando Haddad.
Pois bem, até hoje o lulopetismo patina nesse tema, sobretudo após a vitória nas eleições de 2022. Seus integrantes pareciam acreditar que haviam derrotado o antipetismo e aniquilado o bolsonarismo. Não foi o que aconteceu. Essa força continua viva. Mais do que isso: cresce e se fortalece.
Lula e sua turma não entenderam — e parecem ainda não entender — que a força opositora não é movida apenas por fascistas, ignorantes, machistas, retrógrados e antidemocráticos, como presumem.
E talvez esteja aí o grande equívoco. Afinal, são milhões de brasileiros que se opõem ao lulopetismo. Flávio obteve 47,07% dos votos no primeiro turno, o equivalente a quase 50 milhões de eleitores. Será que toda essa população é machista, antidemocrática, fascista, extremista e ignorante? É óbvio que não.
Faltou ao petista compreender que, à medida que crescia, sufocava possíveis lideranças que agora poderiam ajudá-lo. Onde está Marina Silva? Qual é o seu peso nesta eleição? Quanto vale uma declaração sua? Onde está Heloísa Helena? E Ciro Gomes? E Simone Tebet? O lulopetismo jamais soube acolher críticas ou promover uma autocrítica consistente. Foram anos no poder sem renovação de lideranças, sem mudanças no discurso e sem ideias novas. Há, inegavelmente, um cansaço.
Falando em Ciro Gomes, recentemente Lula afirmou, em um palanque, que Elmano “enterrou” sua carreira política. Tudo isso em um cenário no qual precisa conquistar votos e construir alianças. Ciro, aliás, era a via possível para salvar a própria esquerda em 2018. Soberbos, fizeram descaso.
Agora, Lula e a cúpula petista, mesmo diante do avanço da oposição, parecem continuar de salto alto. Em vez de enfrentar a força contrária que ajudaram a alimentar, limitam-se a reforçá-la. Entendo não haver outro caminho, senão o da derrota.
Sinceramente, haveria maneira mais digna de Lula encerrar sua carreira política. Ao afirmar que Ciro está enterrado, Lula se esquece de que também caminha para a mesma cova. Dito isso, embora não seja impossível virar o jogo, a reversão desse cenário parece cada vez mais improvável.
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