Opinião
Joaquim Sérvulo
Jornada da virada: Luís Inácio Lula da Silva e a política do oba-oba
As recentes promessas e projetos causaram um enorme barulho, movimentaram a internet, mas não convenceram o eleitor.
Por Joaquim Sérvulo • Política, cotidiano e justiça
19/10/2026 às 08:32
Parece que Lula virou. Talvez seja. Não, não é bem assim...
O PT decidiu apostar todas as fichas naquilo que a política brasileira conhece muito bem: o poder das promessas populares. Agora, o discurso gira em torno de passagem gratuita, dinheiro para microempreendedores individuais e perdão de suas dívidas, fim da jornada de trabalho 6x1 e tantas outras medidas puramente populistas e eleitoreiras.
Na minha última análise, afirmei que o problema do lulopetismo era não compreender mais o Brasil. Isto é, não entender como havia chegado a tamanha rejeição por parte da população. Sim, ainda não entenderam. E isso está muito nítido.
O antipetismo, força dominante das eleições de 2026, é alimentado justamente por esse modo de fazer política, baseado no apelo popular e na multiplicação de promessas.
Embora sempre haja certo oba-oba após uma canetada do petista, a comemoração de hoje já não serve para amanhã. O eleitor que não votou no PT deixou de acreditar em almoço grátis e, por isso, é marcado por questionamentos como: de onde vem o dinheiro? Quem vai pagar a conta? E a carga tributária, como ficará? São essas questões que alimentam o movimento do contra.
E sim, isso implica dizer que as últimas medidas lulistas têm se tornado uma palestra para convertidos. Lula consegue agitar a internet e movimentar as ruas, mas não alcança seu maior inimigo: o antipetismo.
Enquanto isso, os agentes do seu exército, liderados pelos letrados da academia, tentam esclarecer nas redes sociais a diferença entre Marx e a Escola Neoliberal de Chicago. Também não entendem o Brasil. Tenho dito: a política brasileira não é, nem de longe, um auditório universitário. E, ainda que fosse, a ideia de que todo direitista é ignorante é puramente presunçosa. O problema do Brasil não é identitário, é sistêmico. E aqui, sim, poucos entendem — intelectuais tanto da direita quanto da esquerda poderiam debater o país sob esse prisma, mas os ódios e as paixões não permitem.
Enquanto isso ocorre, Flávio joga na retaguarda, sempre esperando o discurso de Lula para se contrapor, chamá-lo de corrupto, ultrapassado e falacioso — talvez muito bem orientado por seus marqueteiros. Não é medo, é estratégia. Flávio não chegou até aqui por suas proposições, mas pelas contradições que explora no petismo. Ele sabe que é justamente o discurso lulista que alimenta o seu movimento.
O opositor de Lula é um político mediano, sem grandes feitos e que hoje milita na condição de herdeiro do pai. O filho de Bolsonaro é do Centrão, mas joga bem contra a política do “Ele não”.
As recentes promessas e projetos causaram um enorme barulho, movimentaram a internet e agitaram as ruas, mas não convenceram o eleitor que decidiu não querer mais o PT. Ou seja, mero oba-oba. Nada mais do que isso. Flávio perderá no Nordeste, mas muito provavelmente ganhará em praticamente todos os demais estados da Federação.
O antipetismo é um movimento de cansaço que nasce das próprias contradições do PT. A eleição, repito, continua indefinida, porém muito mais à direita do que à esquerda. Pode até mudar pelas circunstâncias do segundo turno — menos candidatos, menos dificuldade para votar e diminuição da abstenção —, mas a força do antipetismo continua viva, cada vez mais viva.
E, ainda que Lula vença, ela não morrerá. Pelo contrário: assim como se presumia, em 2022, que não estaria mais aqui nesta eleição, na próxima virá ainda mais forte, em um país ainda mais dividido.
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