Brasil
Prefeito expulsa médicos de hospital aos gritos após acusar profissionais de dormir e 'namorar' em plantão
Gestor diz que flagrou os trabalhadores "dormindo" e "namorando" no alojamento enquanto a emergência estava lotada.
Por Redação
06/11/2026 às 07:16
Prefeito de Barreiros acusa médicos de dormir e 'namorar' durante plantão (Foto: Reprodução/Instagram)
Uma discussão filmada dentro do hospital municipal de Barreiros, na Zona da Mata Sul de Pernambuco, viralizou nas redes sociais. As imagens mostram o prefeito Carlos Artur Soares de Avelar, conhecido como Carlinhos da Pedreira (PP), gritando com dois médicos e expulsando os profissionais do local durante uma visita surpresa.
No vídeo, o gestor diz que flagrou os trabalhadores "dormindo" e "namorando" no alojamento enquanto a emergência estava lotada. Após o ocorrido, a prefeitura anunciou a rescisão do contrato de gestão do Hospital Jailton Messias de Souza Albuquerque com a Associação João Paulo 2º.
O Conselho Regional de Medicina (Cremepe) repudiou a "exposição pública" dos plantonistas. Já o Sindicato dos Médicos de Pernambuco (Simepe) disse que a presença dos médicos, um homem e uma mulher, em ambiente de repouso não autoriza insinuações sobre sua vida íntima e que as imagens divulgadas não demonstram que eles estivessem "namorando".
O caso aconteceu na noite da quarta-feira (4). A "fiscalização surpresa" teria motivada por denúncias de falta de médicos na unidade. Nas imagens, o prefeito aparece percorrendo o hospital e começa a gritar com os médicos após entrar em uma das salas. Os nomes dos plantonistas não foram divulgados.
"Um absurdo o que vocês estão fazendo. Meus Deus do céu! A emergência lotada de gente e vocês aqui dormindo, namorando? É um absurdo. Vou botar para fora agora. Saiam daqui, desse hospital", gritou o prefeito. Logo em seguida, ele chama os profissionais de "vagabundos".
Em outro vídeo, publicado no perfil do prefeito também na quinta, Carlinhos da Pedreira afirmou, durante a participação em um podcast, que havia chegado do Recife por volta das 22h e decidiu entrar no hospital para verificar a unidade.
"Encontrei a recepção completamente lotada e perguntei: 'o que é que está acontecendo aqui no hospital?'. [Disseram]: 'tem três médicos, mas só tem um atendendo'. Eu comecei a procurar, bater em quarto a quarto, e encontrei dois médicos, no mesmo quarto, dormindo, e a população deixando de ser atendida. Disse que eu não admitia aquilo, que era um absurdo o que eles estavam fazendo, que era uma negligência médica, demiti eles na hora", disse.
O g1 procurou a Associação João Paulo II para se manifestar sobre a fiscalização feita pelo prefeito e a rescisão do contrato, mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem.
O que diz a prefeitura
Por meio de nota, a prefeitura de Barreiros informou que a Secretaria de Saúde reassumirá diretamente a gestão administrativa, operacional e assistencial do hospital. Segundo a gestão municipal, a medida é temporária e já deu início ao processo licitatório para contratar uma nova organização que assuma a administração da unidade.
O município disse, ainda, que decidiu rescindir o contrato de gestão nº 026/2024 após o acompanhamento e a avaliação da execução contratual, "considerando os princípios da legalidade, da responsabilidade administrativa e do interesse público". Ainda de acordo com a gestão:
A prefeitura reconhece e agradece à Associação João Paulo II pelos serviços prestados durante o período de parceria;
Está adotando as medidas administrativas necessárias para garantir uma transição organizada;
Considera a continuidade dos atendimentos, a qualidade da assistência e o bem-estar dos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) prioridades.
O que dizem o Cremepe e o Simepe
Por meio de nota, o Cremepe disse que repudia a exposição dos médicos plantonistas e que questionamentos sobre a assistência médica, escalas de plantão e funcionamento dos serviços de saúde devem ser tratados pelos meios institucionais e legais competentes, "sem constrangimento dos profissionais envolvidos".
"A fiscalização dos serviços públicos de saúde não confere a qualquer gestor o direito de expor médicos ao julgamento público, tampouco de comprometer sua honra, imagem e dignidade profissional. Esses direitos devem ser respeitados independentemente da existência de denúncias ou questionamentos sobre a atuação dos profissionais", afirmou a entidade no texto.
Já o Sindicato dos Médicos de Pernambuco (Simepe) afirmou que:
"Repudia veementemente a abordagem do prefeito de Barreiros", marcada por constrangimento público e insinuações sobre a vida íntima dos profissionais;
Fiscalizar os serviços públicos é dever da gestão, mas "humilhar trabalhadores, antecipar julgamentos e alimentar sua exposição ao descrédito são condutas incompatíveis com a responsabilidade do cargo";
A presença de uma médica e um médico em ambiente de repouso não autoriza insinuações de natureza íntima e as imagens divulgadas não demonstram o comportamento insinuado;
Também repudia qualquer tentativa de desqualificação profissional "apoiada em estereótipos de gênero e no julgamento da vida privada de mulheres";
Recebeu relatos de que os profissionais estavam em momento de descanso depois de uma intensa atividade assistencial nas primeiras 12 horas de plantão enquanto um terceiro médico continuava atendendo;
O repouso durante os plantões deve ser organizado com garantia de continuidade dos atendimentos e sua utilização não configura, por si só, abandono do serviço.
G1
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